

O projeto Arte de Ensinar tem como viés principal a capacitação profissional de jovens e deficientes visuais. Com o intuito de promover a integração entre esses públicos, o projeto abrange aulas de informática, banco de dados, telemarketing, Dosvox e apoio ao ensino.
As aulas são ministradas sempre por professores capacitados, com uma metodologia diferenciada e com softwares específicos as necessidades dos deficientes.
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Arte de ensinar a viver
Instituição propõe a integração como ferramenta de superação da deficiência
Em um mundo tecnológico e acelerado pela velocidade da informação como lidar com uma limitação como a deficiência visual? Após um diagnóstico de cegueira a única alternativa seria reduzir a quase zero as expectativas pessoais desse indivíduo? Essas e outras perguntas, cada vez mais, têm sido respondidas com exemplos de superação. “As pessoas não acreditam na capacidade dos deficientes visuais, e se a gente não lutar contra isso, acaba desacreditado também”. Este desabafo do estudante de direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Gabriel Farias Librelatto, 21 anos, demonstra a dificuldade que eles têm de encontrar estímulo para vencer as barreiras da deficiência, mesmo na própria família. “Meu pai diz que se arrepende de não ter feito uma faculdade. Quando estou preocupado com a sobrecarga do curso, diz que me preocupo à toa. Sinto que ele acha que a minha luta é um pouco em vão”, disse Gabriel. “Muita gente considera um milagre a gente ter chegado até aqui. Parece que o natural seria ficarmos em casa, conformados com nossos problemas”, disse Francisco Ananias de Souza, 27 anos, atleta do Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD) e medalha de bronze no campeonato brasileiro para iniciantes em 2008.
Ambos são alunos do Centro de Integração Comunitária (Cedicom), com sede na Tijuca, Rio de Janeiro. A ONG oferece os mais diversos cursos para a formação, capacitação e qualificação de deficientes visuais. Lá eles participam de aulas de informática, inglês, dança de salão, montagem e manutenção de computadores, artesanato, entre outras atividades, com o diferencial de todas as turmas serem mescladas com alunos que possuem uma visão normal, os chamados “videntes”. “O público deficiente é muito heterogêneo”, explica Fátima Freitas, presidente do Cedicom. “Muitos deficientes visuais nem sequer foram alfabetizados. Outros já estão na faculdade. Nossa proposta é atender todo mundo com cursos específicos. Temos aulas de português, matemática, alfabetização em Braille. Até cursos profissionalizantes como telemarketing, por exemplo. Quando o deficiente chega aqui se depara com um leque de possibilidades”, afirma.
Felipe Fortunato, 20 anos, atualmente cursando o ensino médio, é um dos mais entusiasmados. “Eu gostei daqui de cara. Eu posso ser cego, mas enxergo longe”, brinca. Felipe já passou por Instituições como o Benjamin Constant, escola referência no estado no Rio de Janeiro e diz ter conhecido o Cedicom através da Associação dos Deficientes Visuais do estado do Rio de Janeiro (ADVERJ). “Eu queria fazer cursos extracurriculares, e me indicaram a ONG. A minha família é toda de videntes, a minha infância foi feliz, sou muito estimulado por eles. Eu sempre desejo buscar algo melhor para mim, e aqui no Cedicom percebi o quanto eu tenho que me qualificar para isso”, disse. E aproveita para deixar uma mensagem: “Não desista dos seus sonhos, corra atrás. Lembre-se todo dia que você é capaz como qualquer outra pessoa”, concluiu.
Segundo IBGE, 16 milhões e 600 mil pessoas têm algum grau de deficiência visual
Segundo o censo 2000 do IBGE, entre 16,6 milhões de pessoas com algum grau de deficiência visual, quase 150 mil se declararam cegos e 2,4 milhões com grande dificuldade de enxergar. Do total de cegos, 77.900 eram mulheres e 70.100, homens. A região Nordeste, apesar de ter população inferior ao Sudeste, concentrava o maior número de pessoas cegas: 57.400 cegos no Nordeste contra 54.600 no Sudeste. São Paulo é o estado com o maior número de cegos (23.900), seguido da Bahia (15.400). Conforme Fátima Freitas, presidente do Cedicom, a questão primordial que norteia a ação da ONG não se resume a pessoa ser portador de uma deficiência, no caso, a deficiência visual (cegueira ou baixa visão), porque isso não se pode alterar. O que pode ser modificado é o “sentir-se deficiente”. É o fato de na sua exclusão ou marginalização a pessoa não ter o mesmo direito à dignidade como cidadão ativo, portanto o que o acaba tornando-o “invisível” diante da sociedade.
A diferença no tratamento começa já nos arquivos municipais: o poder público municipal não sabe quantos cegos existem na cidade. Tal ignorância numérica vira desafio no dia-a-dia dos cegos. “As instituições trabalham com um número aproximado, mas não existe um número oficial. Temos um projeto para realizar este levantamento”, disse Fátima que, além de pedagoga, é administradora especializada em gestão pública. “Nós sobrevivemos dos projetos que desenvolvemos e das parcerias que estabelecemos. Ganhei um sinal sonoro de uma empresa mineira chamada Farol Sinalização, porque a Prefeitura Municipal não tem recurso para garantir esta ferramenta, tão necessária para a segurança e a acessibilidade dos deficientes. Agora estamos buscando uma parceria com o Metrô Rio para conseguir sinalização e pisos táteis para ajudar na locomoção dos deficientes da estação mais próxima até a instituição”, afirmou.
Patrocínio da Petrobras foi fundamental
O Projeto “Arte de Ensinar” patrocinado pela Petrobras é o carro-chefe da ONG, que já formou 600 alunos em informática básica, dos quais 60% deficientes. O certificado do curso garante que o aluno aprenda a manipular softwares como o Jaws, DOSVOX, Virtual Vision e o Magic, programas que acabam se tornando parte da vida de cada um. A mudança na rotina dos deficientes visuais com a introdução da informática é notória. "É uma janela que se abre e deixa nossa vida mais perto da normalidade", resume Marcos Henrique Lima, que troca e-mails com a reporter para esta entrevista. Marcos que hoje cursa o quarto ano de jornalismo e é o único cego de sua faculdade, no Rio de Janeiro, diz que cursos como estes oferecidos pelo Cedicom são fundamentais para agilizar o processo de aprendizagem. "Acesso à informática e à Internet é mais informação. Eu me desenvolvi bem por causa disso", resume. O estudante faz uso do Dosvox desde a primeira versão do software. "Fui evoluindo junto", conta, enquanto relata a independência que ganhou com a utilização dos programas leitores de tela. "Meus colegas da faculdade que enxergam baixam o programa para eu usar quando fazemos trabalhos juntos. Também instalo nas máquinas dos cursos que faço",resume.
Mas a realidade para os deficientes que não têm acesso à tecnologia é outra. "Materiais e equipamentos para cegos têm alto custo. A maioria dos programas são importados", disse Núbia Wanderley, 26 anos, professora do curso de informática do Cedicom. ”Se não fosse o patrocínio da Petrobras não teríamos acesso a programas como o Jaws e o Magic”, enfatizou a professora. Fátima ressaltou que o Virtual Vision é um programa brasileiro, e foi uma aquisição proporcionada pela parceria com o Banco Real. Outro produto nacional é o Dosvox, um programa gratuito desenvolvido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por último, o futuro jornalista Marcos lembrou que sua família também pagou caro pela primeira versão do Dosvox, que, na época, ainda não era gratuito. "Muitos deficientes são de classe mais baixa. Conheço poucos que têm computador", admitiu ele por e-mail.
Braille – a língua que os cegos falam
Devido ao aumento da inclusão digital, alguns fóruns sociais tem sentido a necessidade de ressaltar a importância do Braille para o deficiente, apesar do avanço tecnológico. O sistema Braille consiste em 63 combinações que representam todas as letras do alfabeto, sinais de pontuação e acentuação, além de símbolos matemáticos e musicográficos. O inventor do método, o francês Louis Braille perdeu a visão aos três anos, em um acidente na oficina do pai. Educado no Instituto Real para Jovens Cegos, em Paris, aos 15 anos ele criou o alfabeto Braille, inspirado no código inventado pelo oficial Charles Barbier para se comunicar com seus soldados. Os símbolos em Braille são impressos em alto relevo e as pessoas cegas lêem através do tato.
“Quanto mais o aluno utiliza a ponta dos dedos para ler, mais o tato é desenvolvido”, explica Juliana Mello, jornalista responsável pela comunicação acessível do Cedicom. “A tecnologia jamais acabará com a importância do Braille. Assim como a internet não desbancou o jornalismo impresso”, sentenciou. “Utilizamos todas as ferramentas tecnológicas possíveis para tornar atrativa a comunicação para o deficiente, mesmo em um mundo “sem imagens” como o dele. A imaginação, a criatividade e o domínio de novas ferramentas de acessibilidade são fundamentais”, explicou a jornalista.
Juliana diz que o próximo “filho” do Cedicom será o site completamente acessível para os diferentes graus de deficiência visual, recheado de informações importantes, depoimentos e atualidades. “Logo depois do lançamento do site em abril, providenciaremos a aquisição de uma impressora em braille. Como já foi dito, uma coisa não exclui a outra”, finalizou.
As mãos vêem e os olhos escutam
Manoel dos Anjos, 49 anos, ficou cego aos 25 em um acidente de carro na Av. Brasil. É casado e tem dois filhos, Suelen e Manuel Junior. Sua filha tinha apenas 6 meses na época. “Para mim, o Braille foi fundamental. Eu tinha uma vida normal, mas quando fiquei cego tive que me realfabetizar”, disse Manuel. Segundo ele, o Braille não é importante só para quem já nasce cego. “Cheguei ao Cedicom por indicação de uma amiga. Antes do acidente achava que todo cego vivia de esmolas. Hoje realizo eventos com deficientes visuais, garçons cegos, números de dança. É uma troca de experiências, as pessoas saem emocionadas”, concluiu. “Apoiar o deficiente é fundamental porque nenhuma deficiência é o fim do mundo”, completou Alex Lima, coordenador pedagógico e um dos fundadores do Cedicom. “A minha deficiência foi diagnosticada aos 16 anos, e eu fui obrigado a me reinventar para seguir em frente”.
“A Ong tem o grande desafio de se tornar referência na inclusão, em especial pela potencialidade de transformação do sujeito de forma vivencial, lúdica e inovadora, pela empregabilidade de pessoas com deficiência, pela acessibilidade e não discriminação”,finalizou o coordenador. No folder entregue pela instituição na saída da reportagem uma frase chama a atenção: “Todos somos responsáveis e podemos fazer alguma coisa que torne mais fácil o caminho de alguém”.